Landmarks: Doutrinas e Princípios

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P. Frequentemente nos referimos no ritual aos Landmarks da Ordem, mas eles não são listados ou especificados em lugar algum. O que constitui um Landmark maçônico, poderia fornecer uma lista deles?

R. Esse é um dos temas mais discutíveis na Maçonaria e ele dá origem a diferenças de opinião muito amplas. Qualquer bom dicionário vai definir um Landmark, mas maçonicamente o termo exige significação mais estrita. Os melhores escritores sobre o assunto são unânimes em relação a dois pontos essenciais:

(a) Um Landmark precisa ter existido desde uma “época a partir da qual se lembra a memória humana”.

(b) Um Landmark é um elemento na forma ou essência da sociedade de tal importância que a Maçonaria deixaria de existir se ele fosse removido.

Se essas duas qualificações são usadas estritamente para testar se certas práticas, sistemas, princípios ou regulamentos podem ser admitidos como Landmarks, veremos que, na verdade, poucos itens passam por esse teste rígido.

Ainda assim, a tendência, mesmo entre escritores proeminentes que tentavam compilar listas de Landmarks, parece ser incorporar itens, que na verdade seriam regulamentos, costumes ou princípios, e listas experimentais de Landmarks que variam entre cinco e 50 itens.

Sem o menor desejo de ser dogmático, o texto abaixo é uma tentativa de compilar uma lista de Landmarks aceitáveis que obedeceriam ao teste de dois pontos:

1) Que um maçom professa uma crença em Deus (o Ser Supremo), o G\A\D\U\.

2) Que o L\L\ é parte essencial e indispensável da Loja, para ser aberto com total visibilidade quando os Irmãos estão trabalhando.

3) Que um maçom deve ser homem, livre e de idade madura.

4) Que um maçom, pela sua posição, deve lealdade ao Soberano e à Arte.

5) Que um maçom acredita na imortalidade da alma.

Os primeiros quatro itens listados acima derivam diretamente das Old Charges, datadas dec. 1390, e são os mais antigos documentos da Arte no mundo. O último item na lista, “imortalidade”, está implícito nas crenças religiosas daquele período.

Os maçons ingleses podem gostar de saber que muitas Grandes Lojas no estrangeiro adotaram códigos específicos de Landmarks, geralmente impressos como preâmbulos às suas constituições, e a breve lista acima é muito próxima (embora não idêntica) ao código adotado pela Grande Loja de Massachusetts.

Uma das listas mais interessantes foi criada por Albert Mackey (1807-1881), um grande estudante americano. Embora ele tenha baseado a seleção nos dois pontos essenciais notados acima, citando-os quase que literalmente, a lista chegava a 25 itens, a maioria dos quais nunca poderia ter passado como Landmarks se ele houvesse aplicado o seu próprio teste. As limitações de espaço não permitem uma análise detalhada, e só alguns dos Landmarks de Mackey serão examinados aqui, com comentários para ilustrar os erros.

Nº 1 de Mackey. “Os modos de reconhecimento. Não admitem variação…” Eles não podem ser Landmarks. Vários dos mais importantes deles não surgiram no Ofício até o século XVIII.

Nº 2 de Mackey. “A divisão da Maçonaria simbólica nos três graus…” O sistema de três graus não surgiu até o período entre 1711 e 1725. Antes dessa época, não havia evidência de nada mais do que os dois graus.

Nº 3 de Mackey. “A lenda do Terceiro Grau…” A mais antiga evidência dessa lenda cita Noé, e não Hiram Abiff. Há indícios sólidos dos C.P.D.F., em 1696, como parte da lenda do então Segundo Grau (para Mestre ou Companheiro) e a lenda em uma das suas formas mais antigas pode ter existido naquela época, mas não havia evidência dela no ritual até 1726.

Nº 4 de Mackey. “O governo da Fraternidade é exercido por um Oficial presidente chamado Grão-Mestre que é eleito…”. A primeira Grande Loja foi fundada em 1717. Não havia Grão-Mestre dos maçons antes desse período. Esse item é um regulamento muito apropriado do Livro das Constituições, mas não pode ser um Landmark.

Nos 5, 6, 7, 8 de Mackey. Várias prerrogativas do Grão-Mestre, mas todas são, na verdade, privilégios conferidos a ele pela Grande Loja sobre a qual preside. Estes são regulamentos, ou costumes, e não Landmarks.

Nº 9 de Mackey. “A necessidade dos maçons de se congregar em Lojas…” Esse item extremamente interessante pode ser um Landmark, mas se tentarmos voltar à prática a “tempos imemoriais”, os maçons operativos parecem que podiam se congregar para propósitos de Loja simplesmente quando quaisquer cinco ou seis deles estivessem juntos. Contudo, hoje em dia o modo de congregação para propósitos de Loja é governado por regulamentos.

Nº 10 de Mackey. “O Governo do Ofício em uma [Loja] por um Mestre e dois VVig\ …”. OutroLandmark duvidoso. Em certa época, a Loja era dirigida pelo Mestre e um Vig\

Vários dos Landmarks de Mackey lidam com os direitos de maçons individuais, todos regidos hoje em dia por regulamentos e alguns deles certamente não têm um status de tempos imemoriais.

Naturalmente, é impossível discutir tal assunto de amplo alcance em um artigo de mil e poucas palavras, e essas breves notas servem principalmente para abrir o assunto e apontar o caminho para a discussão.

Doutrinas e Princípios

P. Discutimos seu recente Chamado à Loja sobre o assunto dos Landmarks na nossa Loja de Instrução, e um dos membros mais jovens pediu uma definição de “Doutrinas e Princípios”. Os dicionários sugerem os dois termos como sinônimos. Poderia ajudar?

R. As definições maçônicas de Landmark são fornecidas em (a) e (b) na resposta anterior.

Doutrina: A definição principal no Oxford English Dictionary é “um dogma, princípio ou opinião em religião, filosofia, política ou similar, sustentada por uma escola, seita, partido ou pessoa”.

Princípio: A melhor definição para nosso propósito no Oxford English Dictionary é “um elemento primário, força ou lei que produz ou determina resultados particulares; a base suprema da qual depende a existência de algo; causa, no sentido mais amplo”.

A partir do texto acima, pode parecer que “doutrinas” e “princípios” seriam parecidos em certos aspectos, de modo que, em alguns casos, uma “doutrina” teria a força de um “princípio”. Para uma distinção mais nítida, podemos talvez ignorar esse aspecto da definição, e contar mais com a explicação de doutrina como “dogma”. O elemento essencial dessas duas palavras é que elas representam uma idéia, uma crença ou uma convicção que não pode ser necessariamente provada, mas que é sustentada pela fé, e talvez um dos melhores exemplos que podemos fornecer de uma doutrina maçônica é a da imortalidade da alma.

A definição do O.E.D. de “princípio” é muito forte, “um elemento primário, força ou lei…”, etc., e poderíamos citar, como um exemplo, a máxima, tantas vezes repetida: “todos os homens são iguais diante de Deus”. Este poderia muito bem ser um princípio maçônico. Contudo, no Ofício o termo possui um significado mais especializado. O Código dos Basic Principles for Grand Lodge Recognition mostra isso, por exemplo, no nº 7:

A discussão de religião e política em Loja deve ser estritamente proibida.

Esse item poderia muito bem ter sido uma Regra no nosso Livro das Constituições. A Grande Loja fez dele um dos seus “Princípios Básicos” da Maçonaria, e isso me leva a resumir toda a questão.

Os Landmarks, no nosso sentido do termo, representam algo perpétuo e imutável.

“Doutrinas” são crenças que sustentamos, ainda que estejam além das provas. Elas podem ser de nossa própria invenção ou herdadas, mas não as questionamos porque estão fundamentadas na  fé.

“Princípios” podem ter raízes na lei natural, na ética e nas filosofias que formam o nosso código de conduta. Mas eles também podem ser regras inventadas ou adotadas, ou crenças, que possuem sua força básica como “princípios” simplesmente porque escolhemos reconhecê-los como tais.

O Simbolismo é um Landmark?

P. Segundo compreendo, Landmarks são aqueles princípios fundamentais que caracterizam a Maçonaria e esta é definida como um “sistema peculiar de moralidade, velado na alegoria e ilustrado por símbolos”. Como “ilustrar por símbolos” constitui parte integral do “sistema peculiar”, seria correto dizer que o simbolismo é um Landmark da Maçonaria?

R. A definição que você citou é amplamente aceita, mas sugiro-a como um sistema de moralidade que é a característica essencial do Ofício, enquanto a maneira como o ilustramos, isto é, por símbolos, é incidental. De fato, acho correto dizer que a parte principal do nosso ensinamento vem pelo preceito, exemplo e exortação.

É verdade que usamos símbolos em todas as nossas cerimônias, etc.: na preparação de candidatos, etapas, sinais, ferramentas de trabalho, roupas e acessórios,  e até no piso xadrez da Loja. Praticamente todos eles são “refletidos” em poucas palavras no ritual, projetadas para ensinar o seu simbolismo imediato. Mas este é apenas o fundamento. Os especialistas nesse campo poderiam acrescentar um capítulo em que usamos apenas algumas palavras, e eles encontrariam novos significados para esses mesmos símbolos, muito diferentes daqueles que aceitamos.

Em suma, o simbolismo não é estrito, é uma arte, não ciência exata e não possui limites. Por todos esses motivos, acredito que ele não pode ser descrito adequadamente como umLandmark.

Fraternalmente,

Wagner Veneziani Costa

Fonte Bibliográfica:

O Ofício do Maçom – Harry Carr – Madras Editora, 2007.

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